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Livro infantil resgata memórias do Quilombo da Marambaia e valoriza solidariedade entre crianças

 

Tereza Gonçalves

A literatura infantil brasileira ganha uma nova narrativa inspirada nas vivências, tradições e memórias da comunidade quilombola da Marambaia (RJ). Em O Belo Vestido da Bela, lançado pela editora Revista África e Africanidades, a escritora quilombola Ivonete Pereira Tavares (79 anos) apresenta uma história ambientada na Ilha da Marambaia, território marcado por forte herança afro-brasileira, onde amizade, pertencimento e solidariedade conduzem a trajetória da protagonista.

Natural do Quilombo da Marambaia, Ivonete Tavares constrói sua obra a partir das referências culturais e afetivas do território localizado na Restinga da Marambaia, uma extensa faixa de areia e ilha com cerca de 42 quilômetros de extensão que abrange áreas dos municípios de Mangaratiba, Itaguaí e Rio de Janeiro, na Costa Verde fluminense. Além da atuação como escritora, Ivonete é ativista do Movimento Negro e arquivista aposentada, trajetória que contribui para seu compromisso com a preservação de memórias e narrativas da população negra.

A história acompanha Bela, uma menina negra que vive com a família no povoado da Ilha da Marambaia e aguarda com entusiasmo a tradicional confraternização natalina realizada na Casa Rosa, espaço de encontro da comunidade. Ao longo da narrativa, o leitor é apresentado ao cotidiano dos moradores, à colaboração entre vizinhos e aos saberes transmitidos entre gerações.

Entre os personagens centrais estão os pais de Bela. O pai, Walter, é descrito como o único motorista da comunidade, responsável por transportar materiais para a festa coletiva. Já Dona Nadir, mãe da menina, é reconhecida por suas habilidades como bordadeira, modelista e crocheteira, além da disposição em compartilhar conhecimentos com outras mulheres da região.

A obra também destaca elementos da ancestralidade africana presentes na construção da identidade das personagens. Os vestidos confeccionados por Dona Nadir para Bela e suas amigas são descritos como peças que remetem às histórias dos antepassados africanos, aproximando o universo infantil de referências positivas sobre a herança cultural negra.

O ponto de virada da narrativa acontece quando, a caminho da festa, Bela sofre um acidente e cai em uma poça de lama, manchando o vestido branco que havia sido preparado especialmente para a celebração. O episódio provoca tristeza e frustração na menina, que acredita não poder participar do evento da mesma forma que as demais crianças.

A solução surge por meio de um gesto coletivo. As amigas Ana e Vilma decidem renunciar aos próprios vestidos para que as três possam comparecer à festa em condições semelhantes, transformando um momento de decepção em uma lição sobre empatia e amizade. Ao final, a narrativa reafirma a importância da solidariedade e dos vínculos comunitários como valores fundamentais na formação das crianças.

Mais do que uma história voltada ao público infantil, O Belo Vestido da Bela integra um movimento crescente da literatura afro-brasileira que busca ampliar a representatividade de personagens negras em contextos positivos, valorizando memórias, territórios e experiências frequentemente ausentes do mercado editorial tradicional.

Ao situar a narrativa na Marambaia e trazer personagens negras como protagonistas de uma história marcada pelo afeto familiar e pela convivência comunitária, Ivonete Tavares contribui para o fortalecimento de uma literatura que dialoga com a diversidade cultural brasileira. A publicação também chama atenção para a riqueza histórica e social do Quilombo da Marambaia, uma das comunidades quilombolas mais conhecidas do estado do Rio de Janeiro, cuja trajetória continua inspirando novas produções culturais e literárias.

Ivonete, atualmente moradora da Zona Oeste do RJ, vem marcando presença em diversos territórios fluminenses, em eventos literários como feiras, roda de conversa, oficinas e atividades pedagógicas voltadas aos docentes e estudantes da Educação Básica, contribuindo para a formação de leitores e para a aplicação das Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino de literatura, história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas das redes pública e privada do país.

O livro está à venda em diversas livrarias online, como Amazon e Estante Virtual.

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